Enviado por Celso Figueiredo -
03.10.2014
16h00m
eleições 2014
A retórica dos candidatos: análise das performances no debate da TV
Por Celso Figueiredo*Especialmente quando se fala em política o termo retórica costuma ser associado a discursos vazios, cheios de firulas verbais no mais puro estilo “Odorico Paraguaçu”. Nada mais equivocado. Retórica é coisa séria. É com ela que se ganha ou perde eleição, conquistam-se posições ou defendem-se réus em julgamentos. Retórica é a matéria prima da persuasão, mais importante do que nunca agora que se aproxima a hora da decisão do eleitor. Conhecer, entender e avaliar a retórica dos candidatos é um interessante exercício analítico.
Retórica é a arte/ciência da persuasão. Criada na Grécia clássica, organizada por Aristóteles, foi objeto de trabalho de grandes pensadores como Cícero, Quintiliano, Vieira, Perelman, entre outros...
Os fundamentos da retórica estão na essência do trabalho do candidato quando ele se dirige ao eleitor em um debate. Naquele momento renasce a Ágora, o espaço onde o ateniense decidia, pelo voto, os destinos da sua cidade-estado. A capacidade de persuasão, de convencimento da plateia passa a ser, então, fundamental para o sucesso de cada candidato.
Os elementos básicos da retórica são o Ethos, Pathos e Logos. Essas três dimensões do discurso são responsáveis pelo sucesso de uma mensagem persuasiva. O Ethos é a dimensão da credibilidade, é onde o candidato reforça os elementos que garantem que sua fala é crível, que suas propostas são factíveis, que sua equipe é competente. O Pathos é a dimensão da empatia. Nesse nível o candidato deve conquistar o coração do eleitor, é o elo emocional que se estabelece. A dimensão do logos é a dimensão racional, argumentativa, demonstrativa, na qual o candidato demonstrará sua capacidade de articulação lógica dos temas e das questões em pauta.
Dilma Ethos
Toda a credibilidade da candidata está assentada nas realizações passadas, de seu governo e de seu antecessor. Seu olhar sempre desviado da câmera não ajuda a reforçar sua credibilidade. Brava sempre que desmentida tende a perder a credibilidade.
Pathos
Empatia não é o ponto forte da presidente. Ela concentra suas falas nos fatos deixando a emoção para segundo plano. Sua atitude “senhora dos fatos” não conquista as afeições pois a coloca em posição superior, desagradável.
Logos
Desde o início anunciou que faria um “debate propositivo”, sua abordagem seria, então apoiada na razão, no logos. Seguiu reforçando seu discurso acerca dos feitos de seu governo.
Seu discurso rico em números aumenta a credibilidade das suas falas e empresta a ideia de competência e conhecimento dos fatos e assuntos próprios da presidência da república.
Aécio
Ethos
Nos variados embates que o debate ofereceu, o candidato demonstrou que quando dominava o assunto, ou quando conseguia “encurralar” seu oponente crescia e obtinha bom aspecto diante da plateia. Quando, em oposição, era enquadrado por seu oponente, não soube mostrar flexibilidade para escapar das ciladas armadas pelos concorrentes. Reiterou que “está pronto” reforçando sua qualificação para o cargo.
Pathos
Sua abordagem é mais calorosa, com olhar direto para a câmera e com vocativos gentis ainda que formais como “minha senhora, meu senhor”. Expressa indignação, inclusive quanto às acusações do PT à Marina, sua opositora. Essa postura generosa é positiva e expressa a grandeza adequada a quem irá ocupar o papel de presidente.
Logos
Não apoia seu discurso com dados mas demonstra conhecer os assuntos. Ao não oferecer dados diminui a credibilidade de sua falar. Ainda assim, por apresentar um discurso articulado, a dimensão de logos é bastante consistente.
Marina
Ethos
Investiu na defesa de sua história, mas balançou diante do ataque incisivo de seus opositores. Seu principal desafio, demonstrar que tem consistência para sustentar as pressões da presidência talvez não tenha sido alcançado.
Atacada soube defender-se lembrando a história de vida e soube contra-atacar. Demonstrou assim uma postura mais incisiva enriquecendo seu ethos.
Pathos
A lentidão na elaboração da frase prejudica a candidata. Fala generalidades, perde o pacto com o público. Manteve distanciamento e frieza. Com essa postura não houve a necessária aproximação do eleitor.
Logos
Foi mais objetiva que em debates anteriores. Conseguiu articular respostas com direcionamento pontual e reiterou o fato de ter um programa de governo, diferente de seus oponentes, o que em termos de argumentação não muito forte. Soube duelar com os diversos candidatos sobre temas variados.
*Celso Figueiredo é professor da Universidade Mackenzie


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