Nas redes sociais, proliferação de mensagens de ódio prejudica debate democrático
Por Sérgio Spagnuolo | Yahoo Notícias – qui, 23 de out de 2014
Como fazer ataques não é exclusividade das campanhas
eleitorais de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), muitos
militantes online tem proliferado incontáveis páginas nas redes sociais
promovendo um verdadeiro discurso de ódio contra adversários a fim de,
alguma forma, promover sua agenda de ideias - sejam elas a volta dos
militares no poder, a prisão de petistas ou piadas infames ou a rejeição
à eleição de tucanos.
Claro que há muitas páginas e grupos que convocam apoio pacífico e
militância racional para apoiar seu candidato de escolha, mas o que mais
chama a atenção são os lapsos de agressividade vindos de militantes
ocasionais que afloraram nestas eleições.Analistas de comunicação têm apontado bastante para o papel das redes sociais nesta eleições, um papel que, se não chega a ser tão decisivo quanto o da TV, cresceu significativamente em relevância frente a 2010 - quando houve militância online, mas em uma escala consideravelmente menor do que agora.
No fim das contas, esse tipo de esforço pode até atrair alguns novos apoiadores, novos militantes e curiosos, mas especialistas concordam que isso tem pouco efeito na efetiva escolha de voto final dos eleitores, especialmente os indecisos.
E, numa eleição tão acirrada quanto esta, o convencimento daqueles que ainda não decidiram seu voto pode ser crucial no segundo turno, à medida que Dilma e Aécio aparecem tecnicamente empatados nas últimas pesquisas eleitorais.
"O que a gente tem chamado de discurso do ódio mais coloca para fora as emoções do momento do que o efeito de convencimento de algum indeciso”, disse o Celso Figueiredo, professor de comunicação da Universidade Mackenzie, especializado em redes sociais. "Isso não ajuda em nada o debate, o que nós estamos vendo na internet é muito ruim para a democracia.”
Com uma simples busca no Facebook, é possível notar imediatamente mais grupos contrários ao PT do que ao PSDB, embora haja adversários para os dois lados.
Muitos desses grupos anti-PT, inclusive com nomes bastante inventivos e ofensivos como “Dilma no Inferno” (2.958 membros), “Sou Partidário, Sou contra a Quadrilha Petista, sou Oposição!” (1.821 membros), “Todos Unidos contra o Governo do PT” (6.672 membros),
Há espaço, inclusive, para militância regionalizada, como “Ceará contra os Petralhas e sua base alugada” (3.865 membros), e o mesmo nome, só que do Rio de Janeiro (3.435 membros), Mato Grosso do Sul (743 membros), entre outros.
“As pessoas que fazem esse tipo posicionamento nas redes sociais são pessoas que se afastaram do processo eleitoral”, complementou o professor.
Mas os grupos citados são pequenos. Os grupos grandes mesmo são mais específicos, inclusive demonstrando um nível de radicalismo digno das principais ditaduras do século XX.
Um desses grupos, chamado “Intervenção militar - 2014” tem 44,5 mil membros e clama pela "Intervenção Militar Constitucional das FFAA em todas as esferas da República Brasileira… pondo um ponto final na roubalheira desenfreada que se instaurou desde o Palácio do Planalto, até a subprefeitura aqui do bairro da minha casa”.
Outras beiram o ridículo. Com quase 50 mil membros, um grupo clamava antes o período eleitoral pela candidatura do general reformado do Exército Augusto Heleno, que comandou tropa militares brasileiras na missão do Haiti sob o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e já se declarou publicamente contrário à volta dos militares no poder. Houve relatos na imprensa mais cedo no ano de que ele poderia concorrer, mas ele refutou a ideia.
Mas a aglomeração de multidões nesses grupos militantes de redes sociais é algo que Figueiredo, do Mackenzie, chama de “efeito Copa do Mundo”.
“Essa militância não é tao real, é uma militância com efeito Copa do Mundo, como o sujeito que tem a camiseta da seleção no fundo do armário e a usa somente a cada quatro anos”, explicou o professor. “Estamos diante de um fanático eventual, não tivemos esse tipo de militância nas últimas quatro eleições.”









